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Meu Perfil

Mensagem na Garrafa é um weblog de textos literários (poesia e prosa), ou assuntos afins. Todos os textos são de minha autoria:
Elir Ferrari, um apaixonado por literatura e outras linguagens.
janeiro 15, 2009 |
Neo-outono
Naquele outono, uma única folha caiu da amendoeira. Um tanto ressequida, possuía uma deficiência, uma reentrância, como se uma lagarta tivesse lhe dado uma mordida na lateral da ponta. Ficou lá, ao olhar das demais. Olhavam-na de cima, orgulhosas por não terem se despencado.
Um dia o vento soprou forte e nunca mais se ouviu falar da pobrezinha. Presas, as outras sofreram solavancos, contorciam para não se quebrarem e acabar tendo o destino da caída.
A força do vento era tanta, que a amendoeira não aguentou e derrocou. Tombou inteira no meio do passeio público, anêmica que andava. Presas, as folhas todas sucumbiram juntas, invejando o destino da irmã que se houvera partido, alegre, sem destino.
Publicado por elirferrari em 05:52 PM
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agosto 16, 2008 |
Revendo fotos
De volta ao passado, não me reconheço nas fotos que espalho sobre a mesa. Onde está aquele garoto que tanto se identificava com as fotos que dele capturavam? Desesperado, liguei meu PC e, no minhas imagens, abri todos os arquivos que continham meu nome. Esses, sim, são o eu de agora.
Diferentemente das fotos do passado, onde ali eu estava, as fotos de agora não me contêm. Onde fui parar? De quem é esse rosto, ainda tão jovem e a mim já tão estranho? Desconfiei que o problema deveria ser das fotos, má qualidade, problemas de luz e cor, sombra e efeitos físicos e virtuais... Desesperado, busquei o espelho mais próximo, que me mostrou um outro eu que também não me continha. Ali estanquei. O que estava acontecendo?
Quem sou eu que não sou mais quem era? Seria eu o que os outros me diziam que eu era e agora não me dizem mais? Ou ainda me dizem e eu é que não lhes dou mais crédito? Certamente o que vejo hoje é o que eu vejo de mim, não mais uma entidade encoberta, narrada. Muitos diziam de minha beleza e eu acreditava neles. Não havia beleza ali, como hoje há. Mas as imagens que me refletem nas fotografias e me revelam no espelho não são belas. Onde é que o elo se partiu?
A imagem que tenho de mim não é a imagem que vejo. Que abismo separa essas duas instâncias de mim mesmo? Se me refazia pelas fotografias e espelhos, se me reconstruía, minha cara, meu corpo, minha essência, não o fazia por vontade. Hoje, certamente, me divorcio desse eu e me arremesso pelo abismo. Se o abismo é perigoso, é ele que pode deixar o espaço vácuo que me permita ruflar as asas na tentativa de um vôo independente. O sucesso do vôo, seu sei, seu sei, dependerá da quantidade de cargas das quais preciso me despir.
Publicado por elirferrari em 06:38 PM
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maio 24, 2008 |
Felicidade Frágil
Raquítico desde menino, sempre preferiu a companhia das mulheres. Os homens eram muito brutos, poderiam feri-lo. De tanto conviver com mulheres, sua alma absorveu-lhes os modos, e casou-se com uma delas. Com ela envelheceu. Durante toda a vida, deixou em seu corpo as marcas da brutalidade que praticara consigo mesmo. Morreu raquítico, com sempre fora, acreditando que essa era a única possibilidade de ser feliz.
Publicado por elirferrari em 11:00 PM
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março 08, 2008 |
Por um Futuro Colorido
Sabia que a rua de sua casa era a que a levaria a algum lugar. Diante da obscuridade do caminho – o chão cinza, o céu nublado, as sombras ocultas, os olhares bufos, maldades incontidas – pediu permissão na escola e levou a caixa de giz colorido.
Agora sim, ao menos enquanto uma nova chuva não vem, poderia sorrir pelo caminho por onde segue.

Foto recebida por e-mail, desconheço o autor.
Publicado por elirferrari em 06:54 PM
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março 07, 2008 |
A Mensagem na Garrafa [republicando]
Naufragado, esforçou-se em viver numa ilha distante. Distante das pessoas que o aborreciam, distante das coisas mundanas. Muitas garrafas surgiam do mar, todas sempre com algo dentro: umas algas, umas manchas de óleo, uns grãos de areia. Um dia surgiu boiando uma garrafa vazia, que desperdício!, pensou. Num ato de revolta, entrou na garrafa, forçando-a para o lado, atirando-a ao chão, fazendo-a rolar até a praia.

Lançou-se assim ao mar, destemido, à mercê de quem o encontrasse. Os dias foram longos e quentes; e as noites, escuras e frias; o mar gritou-lhe aos ouvidos, bateu, gemeu, estraçalhando-lhe os nervos. O oxigênio não era suficiente para tão longa viagem. Sofregou.
Quando, enfim, atingiu a outra margem, mantiveram-no ainda alguns dias preso, por questões fronteiriças. Seu corpo já doente não resistiu, e feneceu.
Dias depois, ao tirarem o lacre da garrafa, sua massa corporal havia se transmutado em folhas de papel, que traziam a derradeira mensagem: "SOS, naufraguei no auge da minha vida, não me deixem morrer à míngua. Viver aí é ruim, mas a solidão daqui é muito pior".

Até hoje não foi encontrado qualquer outro vestígio de sua existência.
Publicado por elirferrari em 01:03 AM
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fevereiro 10, 2008 |
A Efemeridade Perenizada
Texto e fotografias por Nane Ferrari Imagens às margens do Lago Igapó - Londrina-PR
Reflexos da cidade, de sonhos e desejos...

Reflexos do que somos, ou não somos, talvez do que desejamos ser...
Ou do que querem que sejamos?

“Espelhos d’água”, reflexos perenes que podem se tornar efêmeros. Uma pedra que cai, um vento que sopra, o murmúrio da água; lá se foi a imagem, já não se tem o reflexo!
No espelho, a imagem refletida é efêmera, não pode ser eternizada. Muda a cada olhar e o olhar devolvido nos causa surpresa.

Fotografar é tornar perene a imagem efêmera!
Publicado por elirferrari em 02:43 PM
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